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Há um ano atrás tive o privilégio de conhecer o Nelson Calvinho e os restantes membros do corpo editorial da Hype!, enquanto eles deixavam para trás anos de trabalho na Mega Score para criar algo novo. Juntamente com outros leitores - alguns dos quais mais tarde viriam a fundar o No Continues - observámos os primeiros passos do projecto, cientes de que nada até então se comparava ao que nos foi dado a ver. Desde o profissionalismo e design ao rigor e isenção, tudo parecia apontar para o sucesso.
Mas apesar de bem sucedido, o super projecto foi cancelado dez edições após o seu número inaugural, deixando um tremendo vazio no panorama do jornalismo de videojogos em Portugal. O No Continues contactou o antigo director de conteúdos da revista para saber um pouco mais sobre a sua perspectiva em torno do sucedido. Na seguinte entrevista, Nelson Calvinho fala da Hype!, projectos futuros e do jornalismo de videojogos em Portugal. Nenhuma das suas opiniões representa a redacção da Hype! ou do projecto MyGames.
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No Continues: A Hype! parecia ter tudo para vencer. Um forte grupo editorial, uma maior diversidade de conteúdos, um design arrojado, uma maior aproximação ao consumidor casual sem esquecer os mais veteranos… Que pensas deste desfecho?
Nelson Calvinho: É um desfecho que obviamente entristece a equipa redactorial mas também, acredito, os nossos leitores, especialmente os assinantes; e todos os membros da indústria - editoras, distribuidoras, produtoras nacionais, tanto ligadas aos videojogos como ao lifestyle digital e cultura pop em geral - que viam na Hype! uma forma diferente, inovadora, adulta e arrojada de comunicar com as pessoas. Apesar de termos a nossa quota-parte de responsabilidade, a verdade é que este desfecho não está nem nunca esteve nas nossas mãos.
No lugar da Hype! fica agora um buraco negro que não acredito ser possível de substituir em termos de imprensa escrita. E fica um mercado monopolizado por um único grupo - algo que não beneficia nem a indústria nem os jogadores.
No Continues: No Reino Unido, uma revista conceituada como a Edge vende por mês uma média de 35 mil unidades, num mercado seis vezes maior que o nosso. Tendo em conta o tamanho do mercado português, será exagerado olhar para as sete mil vendas por mês da Hype! como sinónimo de sucesso?
Nelson Calvinho: A Hype! acaba como a segunda revista de videojogos mais vendida em Portugal, num mercado difícil: a crise internacional que afecta os bolsos dos portugueses acelera ainda mais a migração para o consumo de conteúdos gratuitos (online ou não). Por outro lado, a Hype! nunca contou com a campanha de marketing agressiva que merecia e que tinha sido prometida; e, em termos de marketing, nunca se conseguiu posicionar de forma a responder aos anseios dos leitores - falo da política de preços de capa e de covermounts (jogos oferecidos), ou da dificuldade de encontrar revistas em vários pontos de venda, por exemplo. Por outro lado, os obstáculos que todo o projecto MyGames enfrentou - a nível de imprensa, online e televisão - tiveram certamente um impacto negativo no sucesso da revista.
O posicionamento inovador da Hype! também dificultou essa entrada no mercado - e merecia ter sido mais bem explicado aos jogadores, especialmente aos que nunca tiveram o hábito de ler revistas de jogos, por não encontrarem nenhuma com a qual se identificassem. Foram vários os problemas que encontrámos pelo caminho, mas mesmo neste cenário adverso chegámos aos sete mil exemplares de revista. É um sucesso? Não, porque o nosso objectivo era bem mais ambicioso. Mas é um sinal de que, com as condições certas, a Hype! tinha de certeza um lugar neste mercado.
Os sete mil leitores que liam a Hype! não são um número suficiente para atingirmos os objectivos a que nos tínhamos proposto, mas são sete mil leitores de que nos orgulhamos de ter convencido a acompanhar-nos nesta aventura. Esquecendo a questão do negócio, sete mil leitores são tanto um motivo de orgulho como 15 ou 25 mil leitores, como chegámos a ter na Mega Score. Mas, no final do dia, são os números que contam. Disseram-nos que o maior problema da Hype! era ter “qualidade a mais”. Será que é por isso que a Hype! e a Edge não vendem mais do que as outras? Responda quem quiser.
Mas o Blitz era um projecto moribundo que se tornou na Blitz, um caso de sucesso assinalável. O que mudou? Aumentou a qualidade por um lado; e passou a beneficiar de um plano de marketing inteligente e consistente…
No Continues: Muitos jogadores casuais não se interessam o suficiente por videojogos ao ponto de investir numa publicação dedicada aos mesmos. Achas que eles poderão ter passado ao lado do projecto, ou que isso tenha de algum modo influenciado as vendas da Hype!? Ou que pelo contrário, conseguiram chegar até eles?
Nelson Calvinho: Bom, teríamos de perceber que tipo de público se enquadra nos chamados “jogadores casuais”. Mas parto do pressuposto de que se fala das famílias, da malta que gosta de jogos mas que não tem tanta disponibilidade ou interesse em estar constantemente a jogar.
Acho que há muitos jogadores “casuais” que se interessam suficientemente por jogos para querer estar informados sobre eles. Mas nunca ninguém fez uma revista para eles. A Hype! poderia ter sido muito bem essa revista. Quanto ao resto, já dei a resposta atrás: se queremos chegar a novos públicos, temos de ser capazes de lhes dizer “hei, cá está uma nova revista, com um novo estilo, uma nova maturidade, que vai agradar a vocês”. Isso faz-se com marketing, não apenas largando a revista nas bancas, esperando que as pessoas descubram uma nova revista por si mesmas, no meio de tantas outras. Especialmente depois de todo o backlash negativo suscitado pelo programa de televisão… Portanto sim, acho que passaram ao lado do projecto. Mesmo assim recebemos dezenas de cartas de leitores que nos confessaram terem começado a comprar uma revista de jogos pela primeira vez, incluindo leitores mais velhos e também o público feminino.
No Continues: Se soubesses antecipadamente que isto aconteceria, modificarias algo relativamente à direcção em que tentaram levar o projecto?
Nelson Calvinho: Já adivinhava antecipadamente que isto poderia acontecer, e não senti que deveria mudar a direcção editorial do projecto, porque sempre confiei que a redacção estava a trilhar o rumo correcto que nos levaria ao sucesso. Posso parecer pedante por dizer isto, ou parecer que estou a sacudir as responsabilidades, mas não há motivo para afirmar o contrário: com as condições que tinha, a redacção fez o melhor trabalho jamais feito sobre videojogos em Portugal. E na redacção incluo os colaboradores internacionais. Ainda há pouco tempo recebi emails dos dois Brians (Brian Crecente e Brian Ashcraft), do João (Diniz Sanches) e do Kieron (Gillen) a manifestar apoio ao projecto editorial e a elogiar as qualidades da Hype!.
Houve quem nos tivesse dito que “não podíamos ter dito” o que dissemos na pseudo-conferência de imprensa que demos via streaming, e que eu seria alvo de chacota por parte de segmentos da indústria. Já se sabe que em Portugal defender convicções é visto como ridículo.
No Continues: Aceitarias ser convidado para uma outra publicação de videojogos, a solo ou com a mesma equipa? Mesmo que não o fizesses, planeias continuar ligado ao mercado dos videojogos?
Nelson Calvinho: Depende da publicação - e já agora, estamos a falar só de imprensa escrita ou também online? Depois de tudo o que tenho defendido ao longo dos anos, ficar-me-ia mal aceitar entrar a bordo de certos projectos com uma identidade e perfil nos quais não me revejo - e atenção que não estou a colocar em causa a qualidade ou a integridade das pessoas que fazem parte desses projectos.
Se planeio continuar ligado ao mercado dos videojogos? Os videojogos são um meio que me fascina. São o futuro. Ando a escrever e a defender este meio há quase 20 anos. Naturalmente que se o fiz foi por “amor à causa”. Mas em Portugal há poucas saídas nesta área. Por outro lado, sinto que a indústria está um pouco farta de mim e, por outro lado, também preciso de uma pausa. Nunca se sabe. Para já vou tentar manter uma ligação através do ultimonivel.blogspot.com (actualmente em reconstrução).
No Continues: Tens mantido contacto com o resto da equipa? Algum deles pensa enveredar em outros projectos relacionados com videojogos?
Nelson Calvinho: O projecto acabou mas não estamos (ainda!) desempregados. Estou neste momento na redacção com o Jorge (Vieira) e o Rui (Guerreiro D’Ângela). Os outros estão de férias. Não sei quais são os planos deles. Sei que, quando temos responsabilidades, famílias e contas para pagar, a prioridade é conseguir um emprego, seja lá em que área for.
No Continues: Como te sentes em relação ao legado da Mega Score e da Hype!? As comunidades, os leitores, e tudo o resto que se formou graças ao vosso trabalho…
Nelson Calvinho: Sinto um grande orgulho e responsabilidade, por saber que muita gente cresceu a ler-nos ao longo dos anos - quem tivesse 15 anos quando leu a primeira Mega Score tem hoje 28 - provavelmente tem uma carreira, está casado e tem filhos! É muito tempo. São muitas pessoas, e é muita responsabilidade. Orgulhamo-nos de ter tratado todas as pessoas como adultos, de ter ajudado, nem que seja um bocadinho, a olhar para os videojogos de uma outra maneira - mesmo que nem sempre estando, nós e os leitores, de acordo. Gosto de olhar para trás e de pensar em comunidades, como as das várias encarnações dos fóruns da Mega Score, e de acreditar que aqueles eram espaços de discussão de videojogos um bocadinho diferentes (para melhor) dos restantes fóruns.
E uma coisa é certa: a Mega Score, pelo papel pioneiro que teve; e a Hype!, pela abordagem revolucionária que apresentou; terão sido as publicações que mais impacto e influência tiveram, a nível jornalístico, em Portugal, e a isso também se deve o contributo de quem ficou para trás: o José Antunes, o António Eduardo Marques, e vários editores e jornalistas que participaram nos projectos não são todas as revistas em Portugal que se podem orgulhar de ter tido um relacionamento tão próximo com os seus leitores como teve a Mega Score e a Hype!.
A ideia é que os leitores e nós, jornalistas, crescemos e evoluímos juntos - graças à diversidade e ao respeito mútuo.
No Continues: O que pensas do jornalismo de videojogos em Portugal? Achas que o mercado não estava pronto para a vossa visão e que ainda é muito ortodoxo, ou que apesar de tudo ainda há muito que se pode fazer de novo? Considerando as experiências negativas que já tiveste, aconselhas alguém a entrar no ramo?
Nelson Calvinho: Acho que as publicações de videojogos feitas em Portugal estão bem acima da média mundial, a todos os níveis - editoriais, de ofertas, de design. Olho para as publicações espanholas e francesas e arrepio-me com a falta de evolução, com a monotonia do design, da linguagem, da abordagem aos temas.
O mercado português sempre foi extremamente competitivo. Infelizmente, é um mercado pequeno, que não permite uma maior e desejável transferência de recursos humanos entre publicações, o que deixa os jornalistas numa posição fragilizada. só têm aquelas duas ou três empresas que produzem conteúdos e mais nada. A nível online, há também projectos muito interessantes: o PTGamers é tão bom como a maioria dos portais internacionais; o rumblepack.wordpress.com tem uma abordagem ousada, provocadora, refrescante. Comunidades como a do Insertcoin/Ene3 também são importantes. Vamos ver como corre o No Continues :-)
(O resto da equipa do No Continues não estava disponível para comentar esta última parte por estarem concentrados demais no olhar másculo do Nelson)
Nelson Calvinho: Quanto ao facto do mercado estar preparado ou não para a Hype!: acho que estava, mas todos os problemas que enunciei atrás, mais o facto da revista só se ter mantido no mercado durante 10 edições, tornam qualquer afirmação em pura especulação ou opinião pessoal. A verdade é que nunca saberemos se o mercado estava preparado para a Hype!. Pelo menos havia 7 mil leitores que estavam.
Ah, e não acho a Hype! pouco ortodoxa. As revistas de jogos em geral é que são pouco ortodoxas comparadas com as revistas de outros segmentos, como a música ou o cinema. As revistas de jogos parecem reféns de uma síndroma Peter Pan: os jogos evoluíram, tornaram-se mais maduros, atingiram novos públicos, mas as revistas de jogos continuam numa eterna adolescência. Mudaram muito nos últimos 20 anos? Estimulam uma espécie de pensamento único tecnocrata muito imaturo – coisas como o GameRankings ou o Metacritics ainda ajudam mais à festa. “Se a média no gamerankins é 86%, como é que se ATREVEM a ter uma opinião diferente?!??!”. Levei com esta lógica retorcida tanto de leitores como de editoras.
Acho que a indústria está-se a começar a borrifar para a imprensa especializada porque eles já deram um passo em frente e já perceberam que não é com a imprensa especializada que vão melhorar o que quer que seja. A Nintendo, a EA, a Sony, estão muito à frente da imprensa especializada e dos chamados jogadores hardcore que reclamam inovação mas pensam exactamente como pensavam há 20 anos. Foi o Satoru Iwata que disse, numa entrevista à Time, que se se fossem fiar no que os jogadores pensam e querem, nunca tinham chegado à DS e à Wii, mas apenas a uma GameCube mais poderosa.
No Continues: Cada vez mais se fala de um amadurecimento da indústria. Pensas que isso se reflectirá inevitavelmente no jornalismo, incluindo o nosso, dando lugar a novas maneiras de pensar sobre videojogos?
Nelson Calvinho: Acredito que a evolução do jornalismo de videojogos não virá (necessariamente) da imprensa especializada, mas de gente com outro background, com um horizonte mais alargado de interesses, que mais facilmente se encontra na imprensa generalista - não quer dizer que não sejam jogadores tão hardcore como os outros. É o exemplo de pessoas como o Kieron Gillen. À medida que a indústria for crescendo e seduzindo novos tipos de jogadores, e à medida que mais gente perceber que os videojogos já não são uma coisa para miúdos, mais gente haverá a querer falar deles com novos discursos. Os miúdos que hoje sentem necessidade de falar de jogos na Internet de uma forma irreverente e independente também vão ajudar a fazer um novo, e mais interessante, jornalismo especializado.
Acima de tudo, é preciso perceber que é da diversidade de interesses (não podemos compreender os videojogos modernos sem nos interessarmos por cinema, cultura digital, lifestyle e cultura pop em geral) e de opiniões que nasce um melhor jornalismo. Se o jornalismo é um sintoma da democracia, como é que a intolerância à diversidade de opiniões e o tribalismo que se vê permanentemente nas comunidades de jogadores pode ajudar no que quer que seja? Saiam do gueto e venham cá para fora apanhar sol! Precisamos de mais pensamento criativo e ‘out of the box’, como o que o Satoru Iwata defende.
No Continues: Para finalizar, gostaria de agradecer a disponibilidade, honestidade e amizade do Nelson Calvinho durante todos estes anos, e desejar a ele e ao resto da equipa da Hype! felicidades para todos os seus projectos futuros.
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