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Confrontados com a nossa mortalidade, tentamos criar um registo da nossa breve passagem pelo mundo. Perante a impossibilidade de continuarmos vivos, tentamos deixar um legado, tentamos que os próximos nos lembrem, e, para isso, escrevemos, desenhamos, fotografamos, filmamos, registamos o que podemos, o que achamos de mais importante, para que quem venha a seguir se lembre que alguém fez algo e que esse alguém fomos nós.
Civilizações caíram, deixando um rasto tão ténue que muitas vezes apenas podemos conjecturar através da análise de pequenos vestígios, muitos deixados sem a intenção de serem o registo dessas mesmas civilizações e do seu povo. Felizmente, outras civilizações conseguiram ter um registo bem mais completo, em boa parte porque escreveram sobre o que pensavam, sobre o que faziam e até mesmo sobre o porquê. No entanto, para alguém no futuro conseguir ler o que outro alguém escreveu no passado, é preciso que o primeiro conheça a língua do segundo. Um exemplo perfeito disto foi a incapacidade que tínhamos em decifrar os escritos do Antigo Egipto até ser descoberta a Pedra de Roseta.
Actualmente escrevemos muito, mais do que em qualquer outra época da história da humanidade, mas cada vez menos em papel e cada vez mais em digital. Mesmo o que escrevemos em papel, tentamos colocar em digital, mesmo o que desenhamos, o que filmamos, o que fotografamos, o que queremos registar, inexoravelmente tentamos colocar em digital. O que escrevo neste momento sai da minha mente, passa pelos meus dedos e cai sobre o digital, nem sequer passa pelo papel. Aprendi a escrever no papel, segurando uma caneta, mas agora tenho pouco uso para isso.
Podemos discutir a longevidade comparada entre o papel e os inúmeros meios digitais de armazenamento, mas a verdade é que será necessário cuidado e uma boa dose de sorte para qualquer um deles sobreviver à nossa civilização. Mas o que acontecerá se a nossa civilização cair, como muitas outras antes da nossa? O que acontecerá se alguém descobrir um livro e um DVD?
No caso do livro, bastará abrir e folhear as páginas e caso saiba interpretar os nossos caracteres e as nossas palavras, esse alguém poderá ter um vislumbre de o que foi a nossa civilização, de como era o nosso povo. Mas no caso do DVD, apenas temos “zeros” e “uns” e será necessário um interprete para transformar esses “zeros” e “uns” em caracteres, palavras, imagens, vídeos, etc. Apenas depois de perceber a linguagem das nossas máquinas, esse alguém poderá compreender a nossa linguagem e com isso compreender-nos a nós.
Imaginem alguém no futuro a desenterrar um cartucho único e sozinho do Super Mario 3. Imaginem esse alguém a tentar perceber o que é aquela caixa cinzenta de plástico e metal. Mesmo sabendo que é um videojogo, como poderá esse alguém “ler” o que lá está “escrito” se não tem a máquina que traduz aqueles “zeros” e “uns” para a linguagem de sons e imagem que percebemos? Agora tenham isto em conta. Quase todas as pessoas têm a capacidade de falar e ouvir, de comunicar em linguagem humana, desde que os interlocutores falem o mesmo código linguistico, mas apenas um numero restrito de pessoas tem a capacidade de falar a linguagem das máquinas. Não estou neste ponto a falar de uma linguagem de programação, como C++ ou Java ou HTML, essa é uma camada entre a linguagem da máquina e a nossa linguagem. Estou a falar de um nível mais baixo, da linguagem da máquina, dos “zeros” e dos “uns” organizados de uma forma especifica, para que as nossas máquinas saibam o que nós queremos que elas façam. Isto é o exemplo da dificuldade que nós temos em comunicar com as nossas máquinas, agora tentem imaginar alguém no futuro a tentar fazer o mesmo, mas sem saberem o mesmo que nós sobre elas.
A linguagem das máquinas que criamos poderá vir a ser o maior obstáculo para alguém no futuro nos perceber. Será como um escudo, uma protecção dos nossos registos para evitar que sejamos lembrados e compreendidos. Quem nos quiser perceber terá primeiro, de perceber as nossas máquinas.
Afinal de contas, pensava que queríamos ser lembrados, como forma de atingir a imortalidade.
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